A desregulamentação do setor leiteiro e a conseqüente redução da intervenção estatal na atividade, provocaram alterações na forma como o produtor deve encarar o seu negócio.
Primeiro – aquela cômoda situação de responsabilizar o governo por todos os males e percalços da atividade e dele esperar soluções prontas para compensar deficiências gerenciais, perdeu o sentido.
Segundo – os produtores mais conscientes estão se dando conta de que, quem pode e deve resolver os problemas inerentes à atividade, são os próprios produtores juntamente com os demais segmentos que constituem a cadeia agroindustrial do leite.
Os avanços nesse sentido têm sido lentos, mas crescentes. Observa-se que uma parcela considerável de produtores está buscando, através de cursos e assessorias, formas de familiarizar-se com as técnicas administrativas. Isto é ótimo, pois aqui reside uma das maiores carências das empresas rurais brasileiras.
De início, é a administração financeira que tem merecido maior atenção dos produtores. Tudo bem! É lógico que o gerenciamento das finanças da empresa é tema de grande importância pois, em última análise, o que se busca é o resultado econômico da atividade.
Para isso, o controle da dinâmica financeira (fluxo de caixa) e o conhecimento e análise dos reais custos de produção se constituem em instrumentos administrativos indispensáveis.
Mas, por oportuno, é interessante ressaltar que a ciência administração rural não se restringe apenas ao gerenciamento financeiro.
Outros aspectos não menos importantes devem necessariamente ser contemplados, tais como, o gerenciamento da produção, dos recursos humanos, da comercialização e do meio ambiente.
Vamos nos deter um pouco no gerenciamento da produção. Para fins didáticos, nos cursos e palestras sobre administração rural, costumo mencionar dois tipos básicos de produtores: o produtor-gerente e o produtor-conformado.
O primeiro é aquele produtor que planeja a atividade, estabelece objetivos e metas e intervém de forma efetiva no processo produtivo de modo a alcançar os propósitos estabelecidos.
Este, dentro do possível, faz as coisas acontecerem de acordo com o planejado. Já o produtor conformado, deixa as coisas acontecerem ao natural, não intervém de forma eficiente no processo, mesmo porque não tem objetivos e metas definidos.
Para este vale o preceito de que “
para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve”.
Para comparar o comportamento desses dois tipos de produtores , vou utilizar dois exemplos práticos – um referente à criação de terneiras (bezerras) e novilhas e o outro ao gerenciamento da reprodução.
Para a criação de terneiras e novilhas, o produtor-gerente estabelece metas bem definidas como: as terneiras serão criadas de tal modo que entre 14 e 16 meses apresentem um nível de desenvolvimento corporal (peso e altura), que permita a primeira cobertura ou inseminação.
Por outro lado, o produtor conformado limita-se a constatar que as novilhas estão atrasadas quanto ao desenvolvimento corporal, ”mas... o que há de se fazer?”.
No que se refere à reprodução, considerando que a lactação é uma conseqüência direta do parto, é obvio que quanto maior for o número de partos durante a vida produtiva de uma vaca, maior será o número de lactações.
O produtor-gerente controla o comportamento reprodutivo de suas vacas, registra as ocorrências e, em não ocorrendo o esperado, busca saber as causas e, por conseqüência, age no sentido de corrigir eventuais problemas. Ou seja, faz acontecer.
Já o produtor-conformado, limita-se a constatar que se passaram 4 ou 5 meses e a vaca não manifestou cio. Deixa acontecer.
É claro que no curto espaço de um artigo não poderiam ser contemplados todos os fatores passíveis de intervenção no processo de gerenciamento da produção leiteira.
Neste artigo não fiz referências a vários instrumentos de avaliação de desempenho da atividade, mas voltarei ao tema em outra oportunidade.
Provocação: e você leitor, se identifica com qual tipo de produtor – o gerente ou o conformado?
Otaliz de Vargas Montardo é médico veterinário e instrutor do Senar – RS