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No cenário global do agronegócio, o Brasil se destaca como o produtor mais competitivo em larga escala e um dos maiores exportadores, tendo ultrapassado os Estados Unidos na exportação de commodities agrícolas. Apesar dos desafios em algumas áreas do agronegócio, o Brasil tem registrado ganhos expressivos. O mercado de carnes, por exemplo, teve aumento de 11,4% na receita com exportações, atingindo recorde nominal de US$26,2 bilhões em 2024. O faturamento com as exportações de carne bovina em dólares, em particular, cresceu 22,8%.
Para entender melhor como o Brasil pode se posicionar diante desse cenário e manter sua liderança, conversamos com Marcos Jank, professor sênior de agronegócio no Insper e coordenador do centro Insper Agro Global, que traz uma visão estratégica sobre o futuro do setor de carnes. Jank será um dos palestrantes presentes no Encontro de Confinamento e Recriadores, da Scot Consultoria, que ocorrerá entre 8 e 11 de abril, em Ribeirão Preto e Barretos, São Paulo.
Scot Consultoria: Jank, considerando o contexto da exportação, qual é o panorama atual da cadeia produtiva de carne no Brasil? E como você avalia o posicionamento do Brasil no mercado global de carne bovina?
Marcos Jank: O panorama da carne bovina é muito diferenciado e positivo, em termos de mercado, por uma razão muito simples: a oferta de carne para exportação. Existem muitos países que produzem e consomem carne, mas, quando falamos do mercado, são poucos os países que conseguem produzir carne financeiramente competitiva. Percebemos que isso está crescendo cada vez mais no Brasil e na América do Sul, que é a região com maior potencial para se tornar a grande fornecedora de carne do mundo.
Temos presenciado crises de produção nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália. Assim, cada vez mais há uma concentração da produção de carne na América do Sul e, especialmente, no Brasil, pois ainda temos um potencial extraordinário.
O Brasil possui 80,0 milhões de hectares de áreas agrícolas, 160,0 milhões de hectares de pasto, sendo que uma grande parte desses pastos estão em condições de degradação severa ou moderada. Portanto, o potencial para melhorar a produtividade do gado e intensificar a produção é imenso. Esse processo é, inclusive, pressionado pela agricultura, com a chamada integração lavoura-pecuária, que nada mais é do que a intensificação das áreas de pasto, seja para produzir grãos, seja para produzir mais bois.
Assim, o potencial de intensificação ainda é muito grande, o que transforma a América do Sul, em especial o Brasil, em uma região com muito potencial. Refiro-me também ao potencial que a Argentina tem de recuperar sua pecuária, além do Uruguai, Paraguai, Bolívia e Colômbia, países que, na minha visão, dominarão a oferta global de carne.
Scot Consultoria: De que forma a concorrência com outros países produtores de carne, como os Estados Unidos e a Austrália, pode impactar a exportação de carne bovina do Brasil? Quais são as vantagens competitivas desses países e como o Brasil pode reagir a isso?
Marcos Jank: Estados Unidos e Austrália estão no mesmo segmento, que basicamente explora o valor adicionado na exportação. Os dois países fazem um trabalho magnífico de presença no mundo. Se olharmos o cardápio de bons restaurantes, na Ásia, por exemplo, normalmente a carne bovina é destacada como sendo da Austrália ou dos Estados Unidos. São carnes muito populares no mercado gourmet, tanto no “mundo rico” quanto no “mundo emergente”. Esse é o grande segmento que esses países atuam, fazendo um trabalho muito bom de presença, não só de empresas, mas também setorial.
A Austrália realiza esse trabalho há muitos anos, com a Meatstock desempenhando um excelente papel de diferenciação, através de sites, comunicação e escritórios espalhados pela Ásia.
Nós temos uma grande vantagem: produzimos “carne commodity”, sendo “campeões mundiais” em termos de custo e de preços competitivos. E podemos também produzir a carne que Estados Unidos e Austrália fazem, caminhando para isso à medida que intensificamos o rebanho, realizamos cruzamento industrial, temos rebanho de gado europeu e bovinos mais precoces.
Portanto, o Brasil consegue produzir o que eles produzem, mas eles não conseguirão fazer o que fazemos, que é a “carne commodity”. Somos muito mais competitivos que eles e, neste momento, principalmente, nossos preços estão bem mais baixos do que os preços dos concorrentes. Essa é a nossa grande vantagem. Eles têm enfrentado dificuldades para expandir a produção, enquanto nós temos um potencial muito maior que o deles para intensificar nossa pecuária.
Scot Consultoria: Considerando as tendências atuais do mercado global, seria mais vantajoso para o Brasil continuar exportando carne bovina como uma commodity ou investir em agregar valor à produção para alcançar novos nichos? Em que o Brasil precisa melhorar para se manter competitivo nesse cenário?
Marcos Jank: O valor adicionado ainda é um desafio para o Brasil, mas é um segmento que cresce no mundo. Por exemplo, na China, o fato de haver classes médias emergentes e uma população mais jovem que deseja consumir carne bovina, além do elemento da nutrição, cria uma “agenda” positiva de valor adicionado na qual o Brasil pode avançar muito mais. E temos as condições para isso.
Atualmente, somos basicamente a pecuária de pastagem, com apenas 8,0 milhões de bovinos em confinamento, em um rebanho total superior a 200,0 milhões de cabeças. Ou seja, é uma parcela muito pequena e temos capacidade para aumentar o número de confinamentos e intensificar as pastagens com suplementação. Podemos produzir novilhos precoces e já estamos fazendo isso, inclusive, devido à pressão de países, como a China, que desejam comprar animais abatidos até os 30 meses. Além disso, podemos produzir carne de baixo carbono, produtos processados e trabalhar em nichos. Portanto, existe um grande potencial, no meu entendimento, para agregarmos valor à nossa produção.
Mais uma vez, nossos concorrentes terão dificuldades de produzir commodity. Na verdade, para nós, não é commodity “ou” especialidade “ou” valor adicionado, para nós é commodity “e” especialidade “e” valor adicionado, dá para fazer os três bem-feitos.
Scot Consultoria: Com o aumento na adoção de tarifas e medidas protecionistas em diversos mercados, como no contexto do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, como você avalia o impacto dessas políticas na exportação de carne bovina brasileira?
Marcos Jank: Precisamos separar as barreiras que fazem parte de acordos ou regulações internacionais. Hoje, enfrentamos barreiras técnicas e sanitárias altamente restritivas. Podemos olhar o caso da febre aftosa: ainda temos mercados fechados para o Japão e a Coreia do Sul devido à aftosa. Quando ocorre um caso de doença da “vaca louca” (BSE), há todo aquele “drama” de fechamento de mercados – principalmente o chinês. Podemos ter diversos problemas nessa área.
Temos também a barreira técnica, relacionada ao uso de antibióticos, ractopamina, beta-agonistas e de produtos de saúde animal e já enfrentamos barreiras muito fortes, tanto na parte tarifária quanto na não tarifária. Agora, estamos assistindo o crescimento de barreiras na área ambiental. O primeiro grande exemplo é a legislação europeia contra o desmatamento, que pode impactar a exportação brasileira, pois exige que os bovinos adquiridos não tenham "traços" de desmatamento desde o início da cadeia. Isso significa que a Europa exige que os bovinos que ela vai comprar sejam plenamente rastreados, desde o bezerro até o abate. Esse é ainda um grande desafio no Brasil, uma barreira ao comércio, de ordem ambiental.
Em termos de acesso, a situação é semelhante. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul não garante acesso total para a carne brasileira na Europa. Ele concede apenas uma cota adicional muito pequena de 100,0 mil toneladas de carne bovina para o Mercosul, o que representa uma cota bem reduzida. Portanto, ainda temos muita dificuldade de acesso.
Temos também um novo cenário: as tarifas de Donald Trump. A China retaliou ameaçando fechar a compra de carne bovina dos EUA. Embora ainda não tenha feito isso, é possível que o faça, o que poderá ter um impacto positivo para o Brasil, desde que o Brasil não seja penalizado por tarifas. Vale lembrar que essa guerra comercial é bem diferente da ocorrida no primeiro mandato de Donald Trump, quando a guerra estava restrita entre Estados Unidos e China e acabou nos beneficiando no agronegócio.
Agora, essa nova guerra comercial é muito mais ampla, com ameaças de tarifas de 25,0% e não mais 10,0%, sobre Canadá, México, Europa e China. Esse cenário pode vir para o bem ou para o mal. Aparentemente, o Brasil sai ganhando, mas, em algum momento poderá ser atingido pelas políticas tarifárias de Trump. Esse tema, atualmente, exige uma sessão inteira de debate, pois terá impacto no agronegócio brasileiro e principalmente na carne bovina.
Scot Consultoria: Diante de uma concorrência cada vez maior no mercado global de carnes, quais estratégias o Brasil deve adotar para manter sua competitividade e quais são as suas perspectivas para o setor até 2025?
Marcos Jank: Na verdade, existem três aspectos importantes. O primeiro é a produtividade: o aumento da quantidade de carne produzida por hectare. Temos um potencial enorme para isso, com a intensificação do pasto e do gado, além de sistemas integrados. Um exemplo é a produção de etanol de milho, que está crescendo fortemente no Centro-Oeste e gera o DDG, um produto excepcional para engordar de bovinos. Isso é um sistema integrado de grão e pecuária de corte.
O segundo ponto é a questão da sustentabilidade. Ainda somos vistos e acusados, de forma equivocada e falsa, em relação à sustentabilidade na pecuária de corte. Precisamos fazer nossa lição de casa, eliminar o desmatamento ilegal no Brasil e trabalhar a nossa imagem, levando as informações corretas sobre como produzimos gado no Brasil, como industrializamos e exportamos, entre outros aspectos. Portanto, a sustentabilidade é uma agenda muito forte. E o terceiro ponto é que temos um potencial muito grande para agregar valor, e não apenas produzir commodities. Então essas são as três maiores estratégias.
Scot Consultoria: Esse e outros temas serão abordados em sua palestra no Encontro de Confinamento e Recriadores? Deixe um recado para quem ainda não garantiu sua vaga.
Marcos Jank: Iremos falar bastante sobre os temas de mercado. Pretendo abordar o mercado mundial de carnes e as oportunidades para o Brasil. Gostaria de deixar uma mensagem para aqueles que nos assistirão: venham para esse evento, pois estamos vivendo um momento muito especial e diferenciado de transformações estruturais na pecuária de corte.
Eu costumo dizer que o Brasil já teve a década do plantio direto, a década da segunda safra e agora estamos vivenciando a década da pecuária, com forte crescimento de produtividade, intensificação e muitas oportunidades, especialmente com sistemas integrados.
Antes, a agricultura estava de um lado e a pecuária do outro. Agora, estamos trabalhando em sistemas integrados, que têm um enorme potencial de ganho de eficiência. Tenho certeza de que este evento será um marco, trazendo palestras e conhecimento tanto na área técnica quanto na área de mercado, governança, e gestão na pecuária de corte.
Professor sênior de agronegócio no Insper e coordenador do centro Insper Agro Global, é engenheiro agrônomo formado pela ESALQ-USP, mestre em política agrícola pela Montpellier-França, doutor em administração pela FEA-USP e livre docente pela ESALQ. É membro do “Board of Trustees” do International Food Policy Research Institute (IFPRI) em Washington, Estados Unidos, do Conselho Consultivo Independente da Cargill Global para sustentabilidade, uso da terra e proteção de florestas e membro dos Conselhos da RUMO Logística (CAD) e da COMERC Energia.
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