• Segunda-feira, 31 de março de 2025
  • Receba nossos relatórios diários e gratuitos
Scot Consultoria

Carbúnculo hemático mata novilhas no Nordeste


Segunda-feira, 24 de março de 2025 - 18h00


Foto: Bela Magrela


Um veterinário de campo descreveu a morte de oito novilhas superprecoces da raça Nelore, um total de 127 do lote (6,3% morbidade; 100,0% letalidade), numa propriedade do oeste da Bahia. As fêmeas tinham em torno de 15 meses de idade, estavam bem nutridas e todas com dois meses de prenhez. O quadro apareceu subitamente em um animal, e no decorrer de 15 dias outras sete adoeceram e todas sucumbiram. 

O quadro clínico foi semelhante nos animais, caracterizado por isolamento do rebanho, mínima locomoção, febre alta, dificuldade para respirar (dispneia e taquipneia), eliminação de sangue espesso pelas narinas, boca, ânus e vulva, que demorava bastante para se coagular (talhar) (figura 1). Após pouco tempo em pé, os animais caiam, se posicionando inicialmente de quilha (decúbito esternal), com a cabeça voltada à barriga (flanco) (figura 2), e depois de lado (decúbito lateral), então permaneciam em posição de cavalete, se agitavam e apresentavam quadro convulsivo, o que gerava sangramentos nos ferimentos e em regiões das axilas (figura 3). Antes da morte, as grandes massas musculares (pescoço, membros posteriores etc.) se tornavam inchadas (edemaciadas) (figura 4), e a pele ao redor as mamas ficavam arroxeadas (cianose) (figura 5). Em seguida, a morte ocorria dentro de um dia. Após a morte, o “rigor mortis” (endurecimento muscular) demorava ou não se instalava, e o inchaço das carcaças era marcante. Ao toque, a musculatura encontrava-se tenra e edemaciada, denotando rápida decomposição.  As carcaças foram enterradas em vala profunda.

Figura 1.
Sangramento pela narina e boca.

Fonte: Banco de imagens do autor. 

Figura 2.
Cabeça voltada à barriga

Fonte: Banco de imagens do autor. 

Figura 3.
Hemorragia em uma das “axilas”. 

Fonte: Banco de imagens do autor. 

Figura 4.
Inchaço da musculatura.

Fonte: Banco de imagens do autor.

Figura 5.
Arroxeamento na região da mama.

Fonte: Banco de imagens do autor. 

Segundo o relato, ocorreu recentemente (novembro último) uma grande reforma no piquete em que pastejavam, com muito uso de calcário e gesso agrícola, para correção da acidez do solo. Também foi relatado anteriormente ao surto, um vazamento no bebedouro, que proporcionou grande derramamento e empoçamento de água ao redor deste, com favorecimento de ingestão de água empoçada pelas rezes. Chamou a atenção do veterinário a grande quantidade de garças-vaqueiras (Bubulcus ibis) na pastagem, que também bebiam dessa água empoçada (figura 6). Antes do início das fortes chuvas em janeiro ocorreu um longo período de seca, acompanhada de altas temperaturas atmosféricas, no decorrer de todo o período. 

Figura 6.
Foto ilustrativa da garça-vaqueira.

Fonte: Coisas da roça.

Os animais tinham sido recentemente vermifugados, e foram imunizados duas vezes contra “clostridioses”, com vacina comercial contendo 10 toxinas modificadas (toxóides) de cepas diferentes de bactérias de Clostridium, mas com ausência de Bacillus anthracis, bactéria causadora do carbúnculo hemático.

 O veterinário sugeriu as seguintes medidas para o controle do surto:

completa retirada do gado do piquete, sendo deslocado para um pasto do outro lado da propriedade;

repasse no lote, duas vezes ao dia, para isolar imediatamente animais que porventura apresentassem algum sintoma clínico sugestivo da doença;

e imediata vacinação com imunógeno específico contendo, toxóide de B. anthracis.

Com essas medidas não ocorreram, felizmente, até o momento, nenhum caso novo.

Baseado no histórico da doença, no quadro clínico exibido e na eficácia do controle, foi feito o diagnóstico provisório de carbúnculo hemático. Fragmentos de orelha foram enviados para um laboratório especializado para isolamento da bactéria.  

Entendendo a doença

O B. anthracis geralmente penetra por pequenas lesões na boca ou no tubo gastrointestinal e no decorrer de uma semana se multiplica no sangue, e a partir disso se espalha para vários órgãos. Uma de suas toxinas aniquilam células de defesa do animal, outra provoca inchaços e danos na musculatura, nos pulmões e nos rins. Finalmente, uma outra toxina pode interferir grandemente na coagulação do sangue, causando hemorragias generalizadas. A morte do animal é eminente.  

Pano de fundo da doença

Embora o carbúnculo hemático seja mais frequente em certas regiões do mundo, entre o clima subtropical e temperado, em especial no Rio Grande do Sul, em nosso país, a doença também já foi descrita em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, mata Atlântica de Pernambuco e do Rio Grande do Norte. Tanto bovinos de seis meses a dois anos vida, quanto mais velhos podem contrair a enfermidade, mas o primeiro grupo parece ter maior risco, segundo um estudo gaúcho. 

A bactéria em si, (forma vegetativa) é muito pouco resistente ao meio ambiente, em especial a presença de oxigênio e aos ambientes ácidos (pH < 6,0), morrendo rapidamente (figura 7). Para se defender ela se esporula e forma um tipo de couraça no seu entorno tornando-a resistente ao oxigênio, aos ambientes salobros e secos, por décadas (figura 8). Quando encontra condições ideais, sai de seu estado esporulado e se torna vegetativo, causando a doença. 

Figura 7.
B. anthracis em forma vegetativa.

Fonte: Banco de imagens do autor. 

Figura 8.
B. anthracis em forma esporulada.

Fonte: Banco de imagens do autor.

O enterro de bovinos doentes, ou a presença de suas secreções e sangue pode contaminar o solo com bactérias de Bacillus anthracis, que lá sobrevivem. Encharcamentos, devido às chuvas torrenciais ou minhocas podem trazer o bacilo esporulado para a superfície. A sobrevivência do bacilo é maior em áreas úmidas, ricas em matéria orgânica e com pH do solo alcalino (pouco ácido). Muitas aves também podem contaminar depósitos d´água e bebedouros com esporos de B. anthracis presentes em suas fezes, embora as aves sejam altamente resistentes à essa doença.  A ingestão de água contaminada é incriminada com uma das principais fontes de infecção do gado. 

Coincidentemente, nesse surto, ocorreram condições ambientais que parecem ter favorecido o surgimento da doença no gado, em especial a correção do solo com calcário e gesso agrícola, vazamento no bebedouro e empoçamento de água, e principalmente a presença de aves contaminando o ambiente, podendo ser esta a fonte de infecção, visto que a doença nunca foi relatada no rebanho, e nenhum animal de outra propriedade tenha sido incorporado ao plantel nos últimos meses.

Outro aspecto importante é a questão vacinal. A ideia geral entre os técnicos é que quando se emprega uma dupla vacinação, com vacinas comerciais contra “clostridioses”, as rezes estão protegidas contra o carbúnculo hemático – ledo engano –. Até poucos anos atrás, todas vacinas tradicionais brasileiras continham esse toxóide específico, mas por recomendações técnicas elas deixaram de ser acrescidas a estes imunógenos, existindo no momento apenas duas vacinas comerciais que contêm exclusivamente este toxóide (LABOVET®; VETMAT Saúde Animal®, ambas com o nome Vacina Anticarbunculosa). Infelizmente, essa retirada foi súbita e pouquíssimo comunicada à comunidade pecuária pelas empresas, pelo MAPA e pelos Órgãos de Defesa Sanitária Estaduais. Assim, recomendo, no calendário rotineiro de vacinações, essa imunização específica dos bezerros, aos quatro e cinco meses de idade, e uma repetição anual no próximo ano de vida.  

Zoonose 

O carbúnculo hemático, também conhecido como antraz, pode passar dos animais para o homem, transmitindo para este uma grave doença, denominada pústula maligna (figura 9), que pode matar, sendo minimamente reconhecida e diagnosticada pelos médicos. Assim, não se recomenda que os animais com suspeita da doença sejam manipulados ou necropsiados, sem o total cuidado. Diferente do que ocorreu nessa propriedade, em que os animais foram enterrados, aconselha-se que todos os cadáveres suspeitos e suas secreções sejam completamente incinerados e as cinzas misturadas a uma solução de formol a 50,0%, e enterradas em valas profundas.     

Figura 9.
Pústula maligna.

Fonte: Bridget Doyle.


<< Notícia Anterior
Buscar

Newsletter diária

Receba nossos relatórios diários e gratuitos


Loja